domingo, 30 de outubro de 2011

O sistema que devora o equilíbrio social



Os revolucionários da Praça Tahrir acima (que voltaram a reunir-se para protestar contra a continuidade da prática de tortura nas cadeias), mandaram recado para os “companheiros” de Occupy Wall Street e para os Indignados de todas as nacionalidades:
"Estamos envolvidos na mesma luta. Com os interesses do governo se alinhando cada dez mais ao conforto do capital transnacional privado, nossas cidades e casas têm ficado cada vez mais violentas e abstratas, sujeitas a estragos oriundos de novos projetos econômicos e urbanos. Uma geração inteira mundo afora cresceu com a consciência, racional e emocional, de não ter nenhum futuro neste esquema."

Maravilhoso receber esta mensagem! disse Ed Needham, porta-voz de OWS, Ela dá um sentido empático de solidariedade. É claro que os fatos no Egito e aqui não são os mesmos, mas como os egípcios articularam, a mensagem é sobre sentir e saber que um sistema deixou de ser certo, justo, e não querer mais ser um membro explorado deste sistema. Que o mundo saiba que desde que os protestos Occupy Wall Street começaram no dia 17 de setembro, els estão tendo e continuarão a ter um impacto profundo no status quo financeiro.
O que afeta o Egito afeta Nova Iorque. Os direitos das pessoas no mundo inteiro e toda e qualquer aparência de governo livre têm sido seqüestradas por interesses corporativos. O povo egípcio que busca a solidariedade global é como o povo dos Estados Unidos. Sabemos que estamos juntos, com uma escolha única – vitória.

Porém, Christine Lagarde, substituta de seu compatriota DSK no FMI, não concorda em dar aos Indignados a vitória.
Após a ajuda substancial dos Estados Unidos e a Grã-Bretanha para conter o auto-estrangulamento de seus bancos na crise de 2007/2008, a francesa começou uma campanha frutífera junto à Europa para resgatar os que ainda estão à deriva do naufrágio da cobiça.
Como foi que os EUA cavaram este buraco tão fundo em que a superfície parece inatingível?
Para o neoliberalismo vingar, a elite econômica bolou o truque de convencer milhões de estadunidenses chamados na década de 80 de “Democratas Reagan”, a apoiar políticas econômicas obviamente contrárias aos seus interesses e a acreditar que tais medidas que permitiam o enriquecimento de uma minoria minoritaríssima correspondia aos seus valores liberais.

Como conseguiram?
Primeiro edificaram a contra-cultura do materialismo e do hiperconsumismo, baseada na ideologia envernizada e precária da avidez insaciável.
Depois fizeram da competição que leva ao sucesso a qualquer preço o único objetivo aceitável de uma vida, de uma carreira.
Quem não enquadrava nesta ideologia individualista bandoleira era chamado de loser. Um perdedor. Não por ter sido derrotado, mas sim por não ter vontade de subir a escada da ascenção vertiginosa para ter bens materiais supérfluos que não o satisfazem.
Depois venderam a ideia que todos os cidadãos partiam em pé de igualdade. Que todos podiam e tinham de enriquecer-se tanto quanto os mi/bilionários que estavam acima  e de cujo super-enriquecimento o dos pobre-coitados dependia.
(Como aquele conto do vigário que o Delfin Neto passou no povo brasileiro na década de 70, do tal bolo que tinha de crescer para ser dividido. Bolo do qual a grande maioria do Brasil (oprimida pela ditadura em que estava atolada) nem sentiu o cheiro quando estava assado, quem dirá provar um pedaço...).
O problema nesta equação maquiavélica é que o princípio básico do neoliberalismo é redistribuir a riqueza bem acima do patamar social de quem bota a mão na massa para produzi-la.
Portanto, a distância entre a diretriz de como o cidadão deveria viver e como ele conseguia sobreviver era imensa. Foi só aumentando com o consumo sem freios.
O indivíduo incauto, de olho no sucesso falso do possuir, e não no de ser algo que valha, caiu na armadilha do poder de compra virtual de prestações a longo prazo e de cartões de crédito além da quantia à qual deveria estar/ser limitado...
E foi, e é, aí, que a porca torce o rabo e o indivíduo, sozinho ou com a família, vai parar no buraco.

Aí começou a degringolada.
O homem e a mulher que estavam a anos luz do American Dream com o qual lhes acenavam lá do alto, começaram a contrair dívida para viver como os ricos cuja riqueza almejavam - sem dar-se conta que não estavam nem nos primeiros degraus da escada que levava à parte mais elevada. Só a seguravam, embaixo, para dar estabilidade aos lá de cima para que galgassem cada vez mais alto.
O desemprego, o fechamento de escolas públicas que dificultavam a escolarização dos filhos a quem desejavam o futuro melhor que não alcançavam, a consciência inexorável que a indigência em vez de diminuir só aumentava, foi tudo isto acumulado que fez com que os "sonhadores" caíssem na real. 
Mas a sacolejada brutal foi a crise residencial de 2008. Quando dezenas de milhares de famílias ficaram aos Deus dará. Aí a classe média resolveu encarar o que, para ela, é a fonte do mal.

Será?
Talvez o problema seja que tanto na nossa América quanto na África, Europa, Ásia, enfim, em todo lugar em que a cobiça reina, que o vil-metal governa e que os valores foram deturpados, os 1% de super-ricos vivem em um mundo à parte. Vedado ao comum dos mortais cuja labuta permite que vivam como nababos.
Contudo, a indigência é uma doença erradicável.
O neoliberalismo pode ser apenas seu agente. E a crise financeira só o sintoma que fez com que o mal viesse à tona.
Pois uma conjetura pensada parece óbvia. O vírus é a indiferença dos 1 aos 10% cuja ganância é um poço sem fundo e a cegueira em relação ao que não faz parte de seu "mundo" é patente.
O antídoto deste vírus é a consciência. A reabilitação dos reais valores humanos. Valores nos quais o indivíduo vale pelo que é e não pelo que possui e pelo quanto tem no banco.
É um sonho?

PS. O último filme do cineasa francês Philippe Lioret Toutes nos envies - Todas as nossas vontades, retrata bem este processo de crédito que devora a economia familiar. Recomendo.


Na Inglaterra, o movimento dos Indignados recebeu uma informação esta semana que funcionou como uma lenha sequíssima posta no fogo de sua raiva: Nos últimos anos, enquanto a remuneração do funcionário médio seguiu a inflação com dificuldade, a elite de dirigentes de mega-empresas teve um aumento de 49% de salário.
Só para dar água na boca, eis os salários mais altos da Grã-Bretanha, em libra: Mick Davis (Xstrata) £18.426.105; Bart Becht (Reckitt Benkiser) £17.879.000; Michael Spencer (ICAP) £13.419.619; Sir Terry Leahy(Tesco) £12.038.303; Tom Albanese (Rio Tinto) £11.623.162; Sir Martin Sorrell (WPP Group) £8.949.985; Todd Kozel (Gulf Keystone Petroleum) £8.913.223; Don Robert (Experian) £8.601.984; Edward Bonham Carter (Jupiter Fund Management) £8.003.641; Dame Marjorie Scardino (Pearson) £8.003.641.


Fadwa Barghouti em seu escritório, em Ramallah, com a foto do marido, Marwan, ao fundo, declarou esta semana o que todos sabem: "Israel tem de soltar o meu marido para chegar à paz."
É a opinião unânime de ambos os lados. Marwan Barghouti, primo de Mustafá - outro expoente intelectual do Fatah (1) - está preso desde 2002. Está com 53 anos. Ele é uma das poucas figuras respeitadas por palestinos de todas as tendências políticas e ideológicas. É peça fundamental para o sucesso de um projeto de reconciliação entre o Fatah e o Hamas, e uma consequente negociação de paz durável.
Justiça seja feita ao Hamas, Marwan Barghouti estava incluído na lista de prisioneiros que Israel devia libertar.
O nome dele foi vetado em Tel Aviv, por aqueles que têm interesse em que o conflito seja perpetuado até a Cisjordânia for totalmente ocupada, de fato; até que os palestinos que sobreviverem à limpeza étnica na Cisjordânia vivam enjaulados, como em Gaza.
Aliás, o ministro das Relações Exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, provou, uma vez mais, que o fascimo é um mal que polui o cérebro. O Haaretz, jornal moderado de Tel Aviv, publicou no dia 28 que Lieberman, que fala em voz alta o que Netanyahu cochicha em palácio, que Mahmud Abbas tem de ser removido de seu cargo.
Por quê?
Um líder palestino que mobiliza seus compatriotas e o mundo inteiro sem violência, em favor do direito de ter um estado, por vias oficiais, representa perigo para Israel, como?
Para Israel, não.
Para o governo de extrema direita que os dois homens encarnam.    


Neste sábado, após o Hamas concordar com a manutenção da trégua, os israelenses mataram cinco ativistas-militares em Gaza, seus companheiros retaliaram lançando foguetes nas imediações da Faixa, feriram um israelense, que morreu horas mais tarde, e foi só o que a IDF queria para bombardear, mais uma vez, durante a noite, os civis que acordaram assustados e os demais feridos transportados às pressas ao posto de saúde de precário. Os outros quatro, nem acordaram. 
Para entender o extremismo político no qual Israel vem atolando nos últimos anos, basta saber quem lidera o partido “moderado” Kadima, que é a única “oposição” com volume de votos suficientes para participar da disputa eleitoral.
É Tzipi Livni, a mesma advogada que rejeita o Direito quando este não serve seus objetivos e que dirigia Israel em 2008, quando autorizou o bombardeio da Faixa de Gaza, e que por isto corre risco de processos internacionais por crime contra a humanidade.
Na semana passada vestiu camisa de democrata criticando o acordo de troca de prisioneiros que Netanyahu fez com o Hamas, "que fortifica este partido em detrimento de negociações com o líder do Fatah, Mahmoud Abbas."
Interessante. Esta Livni é também a mesma que teve oportunidade de negociar com a Autoridade Palestina e que então exigiu o impossível desta em troca de migalhas (como atestam os Palestine Papers). Razão pela qual os diálogos não deram em nada.
Mas Livni não foi a única a criticar Netanyahu. Outro jurista, Dov Weissglas - braço-direito de Ariel Sharon, o ex-líder do Likud responsável pelo massacre de Sabrah e Shatila, da destruição de centenas de casa palestinas (daí seu apelido de buldozer), da última Intifada (ano 2000) por ter penetrado no pátio da mesquita de Jerusalém com dezenas de soldados armados, e que se encontra em estado de coma desde 2006 - também criticou o Primeiro Ministro por negociar com o Hamas em detrimento da Autoridade Palestina.
"A política do governo atual de enfraquecer a Autoridade Palestina é estúpida e perigosa... Sei dos esforços que o Sr. Abbas e o Sr. Fayad fizeram... A atual estabilidade na Cisjordânia é como uma folha, basta um sopro para que voe."       

Na troca de prisioneiros entre Israel e o Hamas, negociação em que o Novo Egito teve um papel crucial, 25 prisioneiros egípcios também saíram de trás das grades e voltaram para casa em troca de um espião israelense, Ilan Grapel, preso no Cairo no dia 12 de junho deste ano.
Portanto, 25 por 1, é o valor de um cidadão egípcio em relação a um cidadão israelense.
41 vezes mais do que vale um cidadão palestino.



As eleições na Tunísia não foram uma surpresa. Nem no resultado nem na organização democrática, embora os votos, julgados exagerados, no partido islâmico tenham levado centenas de jovens a manifestar dúvidas quanto à não-fraude fora da capital e das cidades principais.
Os votos dos expatriados laicos no Partido Democrata não bastaram contra os muitos emigrantes que na Europa viabilizaram a liderança do partido religioso Ennahda - Renascimento, chefiado por Rached Ghannhouchi.
O vencedor do páreo eleitoral é formado em filosofia na Universidade de Damasco e um homem de ideias islamitas ditas moderadas, com uma longa carreira de oposição a Ben Ali na bagagem. Por isto viveu refugiado em Londres durante os últimos 20 anos e foi um dos primeiros a retornar à Tunísia quando a revolução ficou clara.
Dizem que durante o período de exílio converteu-se à democracia e à igualdade de sexo... Prometeu que o estatuto da mulher não será modificado. Porém, em um país em que o véu foi banido da cabeça das mulheres há décadas e as cidadãs de Tunis se orgulham em ostentar suas madeixas descobertas, as filhas de Ghannouchi ostentam o niqab - nome originário da palavra árabe hajaba, que significa "esconder do olhar" (foto acima).
Apesar de ter conquistado a maioria no Congresso, Ennahda não poderá governar sozinho e querendo ou não terá de respeitar a vontade de Tunis, que não quer perder sua identidade secular e ver Ghannouchi revelar-se uma cópia de Khomeini e a Tunísia transformar-se em um Irã bis governado pela charia (lei islâmica).
No movimento social e no contexto econômico em que o país se encontra, a moderação é o único caminho viável para qualquer político responsável.



Centenas de yemenitas, irmã, filhas, mães de família,  ocuparam o centro de Saana esta semana e confirmaram o papel importante que estão representando na batalha de protestos contra o ditador Ali Abdullah Saleh. Desde janeiro que as passeatas na capital são diárias e a repressão já causou enormes danos.
As mulheres tiraram o makrama- a capa negra com a qual se cobrem da cabeça aos pés - e fizeram uma fogueira de niqab.
Enquanto o país está mergulhado em uma revolta cuja intensidade aumenta sem parar, o "presidente" Saleh não cede em nada. Sabe que os EUA o protegem por causa da ameaça do al-Qaeda e aproveita o caos em que o país está para proteger seus 30 anos de autoritarismo.
É verdade que o grupo terrorista já tomou posse de várias cidades litorâneas no sul e acabou de matar o chefe do Serviço de Segurança do Yêmen, em um atentado.
Mas é também verdade que antes da revolta prolongar-se, o grupo era marginal. Agora está se expandindo e fortalecendo suas bases.
Quanto mais tempo Saleh resistir e atacar, mais a deriva para águas turvas vai aumentar.     




Yesterday’s South African township dwellers can tell you about today’s life in the Occupied Territories... More than an emergency is needed to get to a hospital; less than a crime earns a trip to jail... If apartheid ended, so can the occupation. But the moral force and international pressure will have to be just as determined. The current divestment effort is the first, though certainly not the only, necessary move in that direction.”
Arcebispo Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz em 1984 pelo trabalho contra o apartheid na África do Sul.

 Militarização de Israel e os shiministin


Lista de produtos das colônias a serem boicotados: http://peacenow.org.il/eng/content/boycott-list-products-settlements ;
Free Gaza Movement: http://www.freegaza.org/;



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